Samsung: um fabricante de hardware em busca do seu lado software

No dia 14 de março, o lançamento festivo do smartphone Galaxy S4 da Samsung no Radio City Music Hall – um evento a que não dispensou um número de sapateado, apresentações musicais e sketches cômicas – marcou a estreia não apenas da mais recente versão do carro-chefe da empresa, mas também de suas ambições de líder em inovação e de uma companhia capaz de integrar inúmeros aparelhos à vida do consumidor.

Por enquanto, o Galaxy S4 causou boa impressão em alguns analistas por sua tela generosa de cinco polegadas, a possibilidade de usar simultaneamente a câmera frontal e traseira, controles de vídeo que respondem ao movimento dos olhos e um software de monitoramento da saúde, entre outras novidades. São grandes as expectativas de que o S4 siga na esteira do sucesso do seu predecessor, o Galaxy S3, cujas vendas ultrapassaram 40 milhões de unidades em janeiro.

A Samsung e a Apple são os dois principais contendores na disputa mundial do segmento móvel, em que competem pelo domínio dos setores de smartphones e tablets. De acordo com a empresa de pesquisas IDC, a Samsung e a Apple controlam juntas 51% do mercado mundial de smartphones, com fatias de mercado de 29% e 21,8%, respectivamente. Em terceiro lugar aparece a Huawei, com 4,9% do mercado. A Samsung controla também 42,5% do mercado de Android, de acordo com a Gartner.

Em discurso proferido durante o lançamento do Galaxy S4, J. K. Shin, presidente da divisão de comunicações móveis da Samsung, disse que o aparelho mais recente da empresa teve como meta melhora e simplificar a vida do consumidor. “Somos uma empresa preocupada com a inovação […] Imaginamos as possibilidades e ouvimos vocês [consumidores] para entender o que um smartphone deve proporcionar à sua vida.”

Especialistas da Wharton dizem que é também impressionante o que Shin não mencionou no evento – o sistema operacional Android utilizado pelo S4. Contudo, o aparelho incorpora também produtos da Samsung, como o S Translate, um aplicativo para tradução de textos semelhante a um recurso existente no Android, e o S Navigation, um programa de mapas. “A Samsung está se distanciando do Google e do Android” numa tentativa de reforçar a idéia de que sua marca é maior do que a do sistema operacional do Google, observa Saikat Chaudhuri, professor de administração da Wharton.

Grandes ambições

Contudo, não está claro se a Samsung será capaz de ter um bom desempenho também no segmento de software, acrescenta Chaudhuri. Afinal de contas, a Samsung é muito mais um conglomerado de hardware do que uma empresa que integra sem dificuldades o hardware e o software, como é o caso da Apple. A força da Samsung vem da escala e da habilidade da empresa de produzir telas, processadores e aparelhos móveis. Na verdade, o maior cliente da Samsung é a Apple, que compra peças da rival.

Também não está claro se as melhorias no software da Samsung serão capazes de conquistar a imaginação do grande público. Para alguns analistas, o Galaxy S4 é "evolucionário", e não "revolucionário", e muitos dizem que a Samsung não foi capaz de aprimorar seu aparelho em relação ao da Apple porque faltou a ele um "aplicativo excepcional", ou imprescindível. "Cremos que alguns dos recursos do software são únicos, como inclinar o aparelho para fazer a página rolar, pausar um vídeo por reconhecimento facial e interações baseadas no movimento das mãos, mas cremos que essas melhorias no software são secundárias se comparadas com o que o Siri representou para o iPhone 4S e o Google Now para o Android", disse Gene Munster, analista da Piper Jaffray, em nota de pesquisa. (O Google Now é um serviço que antecipa as necessidades de informações do consumidor e as fornece com base na localização). "Ninguém vai olhar para o S4 e dizer: 'Isso muda tudo'", diz Peter S. Fader, professor de marketing da Wharton. "São recursos excelentes, mas talvez sejam irrelevantes na prática."

Contudo, existe um risco inerente à introdução de muitos recursos novos de uma vez só: confiabilidade. "A reputação da Samsung pode se tornar mais vulnerável se os aplicativos não funcionarem bem", observa Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos e de ética nos negócios da Wharton. Ela cita a reação negativa à tentativa da Apple de substituir o Google Maps na mais recente versão do iPhone por um software de mapas próprio, mas que induzia a erros . "Com isso, perde-se a lealdade do cliente, em vez de conquistá-la." É o que acontece sempre que se vai além do know-how próprio, diz Matwyshyn.

Para a Samsung, "o know-how no segmento de software é o grande fator imprevisível", diz Chaudhuri. "Se todos os recursos do Galaxy S4 funcionarem conforme anunciado, a Apple terá um verdadeiro desafio pela frente, porque terá de criar coisas interessantes" para competir com o aparelho da Samsung.

A Samsung talvez não tenha muita escolha, senão forçar o desenvolvimento de outros aplicativos inovadores. Kendall Whitehouse, editor de tecnologia e de mídia da Knowledge@Wharton, diz que os clientes de smartphones Android têm o desafio de diferenciar seus produtos para evitar a concorrência unicamente com base no preço. "Não creio que a estratégia da Samsung [para agregar valor ao Android através de aplicativos adicionais] seja, em princípio, uma ideia ruim, mas poderá haver problemas de execução", diz Whitehouse.

Distância do Google

Não obstante isso, as ambições da empresa no segmento de software podem ir além da oferta de seus aplicativos únicos. A Samsung está trabalhando em outro sistema operacional de fonte aberta [open source] chamado Tizen, e planeja lançar smartphones sofisticados baseados no novo sistema em agosto ou setembro, segundo a Bloomberg. A Samsung é uma das 12 empresas que trabalham no Tizen como alternativa ao Android.

Especialistas da Wharton dizem que a Samsung talvez precise do Tizen como defesa contra a decisão do Google de investir pesado na aquisição feita, em 2012, da Motorola Mobility, no intuito de se tornar uma forte rival da gigante coreana de aparelhos eletrônicos. Outra dúvida é que o Google possa, futuramente, começar a cobrar pelo Android ou torná-lo menos aberto. De acordo com David Hsu, professor de administração da Wharton, a decisão da Samsung de deixar o Android em segundo plano é uma boa estratégia. "A empresa está se preparando no caso de o Google e o Android se tornarem um risco. Resta saber o que o Google pretende. Trata-se de uma grande vulnerabilidade para a Samsung."

Matwyshyn observa que as dificuldades para a Samsung criar um sistema operacional próprio, bem como um ecossistema de aplicativos, são altos demais para que sejam motivadas por outra coisa que não o receio dos planos que o Google possa vir a ter para seu hardware. "Parte da estratégia da empresa tem de ser motivada pelo temor da integração vertical entre Motorola e Google", diz Matwyshyn.

Um sistema operacional da Samsung seria capaz de tomar o lugar do Android? É possível, diz Matwyshyn. "Parte do grande apelo da Samsung é que se trata de marca confiável. Ela representa um padrão elevado de qualidade e sofisticação em tecnologia."

De acordo com Fader, porém, a Samsung está numa posição delicada, na medida em que procura se distanciar do Android. "Não se sabe ao certo se o consumidor compra um aparelho da Samsung porque é Samsung ou porque é Android", diz. "Por enquanto, o que se tem observado é a última opção. A Samsung tem o melhor aparelho Android. Contudo, ninguém diz que vai comprar um Samsung. A marca da empresa ainda não tem essa força. A Samsung deve mais ao Google do que imagina."

Também não se sabe ao certo se a empresa poderia se afastar do Android se quisesse, dada a massa crítica do ecossistema de aplicativos Android, que rivaliza em opções com o da App Store da Apple. "Basta ver a dificuldade da Microsoft para fazer com que seus desenvolvedores criem aplicativos", ressalta Fader. "Talvez, mais adiante, a decisão da Samsung faça sentido. Hoje, um dos grandes pontos de atração da empresa é que seus aparelhos rodam no Android."

Um "Phablet"?

A recente decisão da Samsung é sinal de que a empresa espera se tornar mais parecida com a Apple, com uma integração perfeita entre hardware e software, dizem os especialistas da Wharton. Contudo, historicamente, os fornecedores de hardware sempre tiveram dificuldades para criar bons softwares. Whitehouse diz que a perícia da Apple na criação de softwares é ímpar sob vários aspectos. "A Samsung sempre se dedicou ao hardware. E embora a Microsoft mexa com hardware, sempre foi uma empresa tipicamente de software. O caso da Apple é bastante incomum, já que é uma empresa boa em hardware e software", diz. Enquanto isso, a Blackberry e a Nokia enfrentam dificuldades no mercado de smartphones em grande parte devido à sua incapacidade de desenvolver softwares arrasadores, acrescenta Whitehouse.

De acordo com Chaudhuri, o estilo de integração vertical da Samsung — conceito segundo o qual uma empresa controla inúmeras partes de um produto — é fundamentalmente distinto da estratégia da Apple. A Samsung opera de modo mais parecido com um conglomerado que produz hardware, e não se sabe em que medida as unidades da empresa trabalham juntas. A integração vertical da Apple combina hardware, software e design do produto para a criação de aparelhos que sejam atraentes e intuitivos. A fabricação propriamente dita é então terceirizada para parceiros como a Foxconn da Hon Hai.

Chaudhuri ressalta que a Samsung faz TVs, câmeras, telefones, PCs, tablets e várias das peças que fazem parte deles. Se a Samsung conseguir agregar o software às suas competências principais, pode se tornar uma ameaça para a Apple. "A Samsung tem todos os componentes e entende de convergência", diz.

Um exemplo de convergência de produto é o chamado "phablet" — um híbrido de telefone e tablet com uma tela de tamanho médio. A Samsung aposta que esses aparelhos híbridos — como o Galaxy Note com tela de cinco polegadas, os tablets de tela de sete a dez polegadas, e os smartphones de tela de cinco polegadas, como é o caso do Galaxy S4 — venderão bem. Por enquanto, a aposta da Samsung tem dado certo. Os números das vendas específicas de vários tablets da empresa não estão disponíveis, mas o IDC informa que a empresa está em segundo lugar no mercado de tablets, com 15,1%, atrás da Apple, com 43,6%.

A Apple reagiu a esses aparelhos com o iPad mini. Contudo, a Samsung está marcando pontos com a tela do S4, que é uma polegada maior do que a do iPhone 5 da Apple. "A empresa coreana está expandindo os limites do tamanho da tela […] As pessoas estão em busca de um aparelho que ocupe a posição intermediária entre um tablet e um smartphone", diz Hsu. A Samsung diz que os phablets se adaptam bem às economias emergentes, uma vez que os consumidores desses mercados não querem comprar um tablet e um smartphone.

"A disputa pelo tamanho de tela está aberta", acrescenta Fader. "Não sabemos que tamanho vencerá, e são muitas as tentativas e erros. A Samsung está na frente, e a ideia do phablet tem um certo potencial."

Outra batalha importante para a Samsung e a Apple gira em torno da TV. A Samsung tem aplicativos e um ecossistema para seus televisores, e já mostrou que o Galaxy S4 pode ser usado como controle remoto. Chaudhuri diz que a Apple precisa de um aparelho de TV — ou de alguma nova categoria de aparelho — para derrotar a Samsung nesse mercado. Fader, porém, diz que a Apple não tem pressa em lançar seu aparelho de TV há tanto tempo alardeado, porque a interface da Smart TV da Samsung é muito ruim.

A Samsung "simplesmente não pode superar a Apple em seu campo", diz Fader. "O grande chamariz do seu S4 é que se trata de um aparelho para quem não quer comprar um iPhone. A Samsung também não pode vencer no segmento de software. Para cada recurso do S4, há cinco do iPhone."

Com relação ao marketing, Fader acrescenta que a Samsung precisa atenuar um pouco suas comparações com a Apple. Uma das campanhas de marketing da empresa zomba dos fãs da Apple que fazem fila à espera do novo iPhone. De acordo com Fader, o fato de os aparelhos da Samsung não provocarem filas em torno do quarteirão é um problema para a empresa. "A Samsung deveria amenizar um pouco esse tipo de publicidade e dizer, em vez disso, que faz as mesmas coisas que a Apple, só que com mais flexibilidade e com uma linha de produtos mais ampla. A Samsung continua a disputar com a Apple um jogo do tipo 'olhe, eu também consigo fazer isso.'"

Seja como for, a disputa entre a Samsung e a Apple não deverá ter um vencedor único. "Há essa tendência estranha de pensar que se uma empresa domina, seus concorrentes estão fadados à derrota", diz Whitehouse. "O mundo real é muito mais matizado. Tanto a Samsung quanto a Apple deverão continuar a dominar o mercado de smartphones por um bom tempo."  

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Samsung: um fabricante de hardware em busca do seu lado software." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [03 April, 2013]. Web. [08 December, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/samsung-um-fabricante-de-hardware-em-busca-do-seu-lado-software/>

APA

Samsung: um fabricante de hardware em busca do seu lado software. Universia Knowledge@Wharton (2013, April 03). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/samsung-um-fabricante-de-hardware-em-busca-do-seu-lado-software/

Chicago

"Samsung: um fabricante de hardware em busca do seu lado software" Universia Knowledge@Wharton, [April 03, 2013].
Accessed [December 08, 2021]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/samsung-um-fabricante-de-hardware-em-busca-do-seu-lado-software/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far