Seguro, expectativa de vida e custo de mortes por armas de fogo nos EUA

A despeito do seu status de nação industrial avançada, os EUA possuem algumas características pouco usuais. Seu sistema de saúde, por exemplo, é o mais caro do mundo, mas nem por isso seus cidadãos são mais saudáveis ou vivem mais do que os cidadãos de outros países. Além disso, apesar de estar entre os países mais seguros do mundo, as mortes por ferimento com arma de fogo nos EUA alcançam cifras impressionantes. Em 2000, foram aproximadamente 11.000 homicídios por arma de fogo e mais de 16.000 suicídios. Na União Européia — com área e população cerca de 25% maior do que as dos EUA — os homicídios causados por arma de fogo ficaram em 1.300 naquele mesmo ano. No Japão, foram 22 mortes. [Os números referentes aos EUA são anteriores à entrada dos dez novos integrantes da UE em 1º de maio de 2004.]

 

Jean Lemaire, professor de Seguros e Ciência Atuarial da Wharton, observa que os dados devem ser analisados sob diferentes óticas. Em recente estudo intitulado “Custo de mortes por arma de fogo nos EUA: redução da expectativa de vida e aumento dos custos com seguros”, a ser publicado na edição de setembro de 2005 do The Journal of Risk and Insurance, Lemaire analisa o impacto médico e financeiro do uso de armas de fogo sobre a sociedade americana. Os resultados são surpreendentes.

 

Os estudiosos da violência decorrente do uso de armas de fogo abordam o tema de perspectivas diversas, inclusive das mais óbvias possíveis, como custos médicos. Contudo, são outros tipos de custos que apresentam “maior dificuldade de quantificação”, assinala Lemaire. “Entre  outros, temos os custos com recursos públicos destinados à polícia, investimentos privados dos indivíduos com proteção e prevenção, redução do índice de produtividade ocasionada pela morte das vítimas e alterações nos índices de qualidade de vida, possibilidade de emprego e moradia restrita a determinadas áreas, menos opção de locais para moradia e abertura de comércio, limitação do horário de funcionamento de estabelecimentos varejistas, custos emocionais decorrentes da adaptação forçada ao risco em grau mais elevado, além de custos resultantes do medo e do sofrimento.”

 

Diminuição da expectativa de vida

Uma disputa antiga em torno da regulamentação do uso de armas de fogo nos EUA remete  à Segunda Emenda da Constituição dos EUA, segundo a qual “a existência de uma milícia devidamente regulamentada, necessária à segurança de um estado livre, impõe que não se infrinja o direito concedido à população de manter e portar armas”. Os defensores do controle de armas entendem que a emenda permite a regulamentação da posse de armas; para os defensores da posse de armas, a lei consigna esse direito de modo irrestrito.

 

Embora sensível ao contexto político do debate que coloca em lados opostos os defensores do controle da posse de armas e aqueles que defendem sua posse irrestrita, Lemaire enfatiza que seu trabalho preocupa-se apenas com a análise dos dados. Ele cita, por exemplo, um estudo de 2000 segundo o qual o custo agregado da violência resultante do uso de armas nos EUA é de cerca de 100 bilhões de dólares ao ano, ou aproximadamente 360 dólares para cada americano. Tomando por base seus conhecimentos no segmento atuarial, Lemaire direcionou a pesquisa de modo que ela explorasse especificamente os dados relativos à expectativa de vida e o custo dos seguros. Sua análise baseia-se “em fatos. Trata-se de um cálculo preciso cujo objetivo é lançar mais luz sobre o debate […] Os números que apresento são incontestáveis”, diz. O autor admite, entretanto, que as pessoas “podem discordar do que fazemos com eles”.

 

Lemaire calcula quanto tempo de suas vidas os americanos perdem em conseqüência do comportamento violento resultante do uso de armas, e também quanto a mais são obrigados a gastar com a aquisição de seguros por causa disso. O que mais surpreende em relação aos custos é o enorme grau de disparidade com que ele se acha distribuído pela população. Segundo Lemaire, todas as mortes por arma de fogo em 2000 — isto é, tanto os homicídios quanto os suicídios — reduziram a expectativa de vida em 103,6 dias, em média. Contudo, se distribuídos por sexo e raça, os dados revelam lacunas significativas no tocante ao desempenho dos vários grupos. Os homens acumulam perdas que oscilam entre cinco e seis vezes mais dias do que as das mulheres: 116,8 ante 30,5. Os afro-americanos do sexo masculino perdem o dobro do número de dias se comparados aos americanos brancos: 361,5 ante 150,7. A lacuna mais notável, naturalmente, estabelece uma combinação  entre os diferenciais  de raça e sexo: a diferença entre o número de dias perdido por afro-americanos de sexo masculino e mulheres brancas é de dez vezes, ou seja, 361,5 dias para os primeiros ante 31,1 para as segundas.

 

Lemaire estima que os custos anuais com seguros, da ordem de bilhões de dólares,  podem ser atribuídos a mortes resultantes do uso de armas de fogo. O autor recorre a estatísticas colhidas em um estudo de 2001 realizado pelo Conselho Americano de Seguros de Vida segundo o qual, em fins de 2000, havia 148 milhões de seguros de vida a termo em grupo e 35 milhões de apólices individuais nos EUA. Havia também 125 milhões de apólices de seguro de vida inteira em grupo e 8 milhões de apólices  individuais, totalizando assim um prêmio anual combinado de pouco menos de 130 bilhões de dólares.

 

Depois de calculados os descontos para as apólices a termo (9,87%) e de vida inteira (1,89%), e eliminando-se as mortes por arma de fogo da equação, Lemaire estima que o custo anual com seguros resultante da violência ocasionada pelo uso de armas de fogo nos EUA seria de 4,9 bilhões de dólares. Contudo, “esse cálculo exagera no valor dos custos”, observa o autor, “na medida em que a mortalidade das vidas seguradas apresenta um diferencial marcante em relação à mortalidade da população”. Como o homicídio atinge de forma desproporcional os jovens, acrescenta Lemaire, e uma vez que indivíduos com menos de 25 anos raramente contratam seguros, as tabelas de cálculo atuarial em vigor já computam o “desconto” referente a homicídios baseando-se para isso nos índices demográficos.

 

Mesmo que reduzíssimos os custos dos seguros para compensar a influência desses fatores, prossegue Lemaire, ainda assim é provável que continuassem no mesmo patamar total de 2 a 2,3 bilhões anuais em virtude de despesas médicas resultantes de danos por uso de armas ou do aumento dos custos necessários à gestão do sistema de justiça criminal em razão do número de mortes ocasionadas pelo uso de armas —  incluindo-se aí os custos de encarceramento — , estimados em cerca de 2,4 bilhões de dólares.

 

Se analisarmos a questão sob uma perspectiva epidemiológica, prossegue Lemaire, observamos que “dentre todos os danos fatais, apenas os acidentes com veículos motorizados têm efeitos mais significativos [do que as mortes por arma de fogo]”. Além disso, os números mostram que “a eliminação de todas as mortes causadas por arma de fogo nos EUA aumentariam a expectativa de vida masculina em proporção maior do que a erradicação de todos os cânceres de cólon e próstata”.

 

O efeito substituição

A idéia de que a redução do número de mortes por arma de fogo aumentaria a expectativa de vida e reduziria os custos com seguros é contestada pelo argumento de que as armas são simplesmente um meio para a consecução de um fim — e que os indivíduos inclinados à violência, seja em relação a si mesmos, seja em relação aos outros, encontrarão um meio de atingir esse objetivo com qualquer instrumento que tenham à mão. É o chamado efeito substituição. “Não creio que os americanos sejam necessariamente mais violentos do que os japoneses ou europeus”, observa Lemaire, “e a história do século 20 mostra, sem dúvida alguma, inúmeros episódios de violência em outros países. Não acredito que os americanos carreguem a violência em seus genes”.

 

O Japão “certamente extrapolou sua cota de violência no século 20”, prossegue o autor, “entretanto, no início deste novo século, encontra-se entre os países mais seguros do mundo: a ausência de armas redundou em criminalidade zero. Vale observar que o Japão apresenta também um índice extremamente baixo de furtos, assaltos a residências etc., contrariando assim o argumento daqueles que advogam a presença de armas dentro de casa como fator inibidor de assaltos”.

 

O autor cita diversos estudos segundo os quais, na área de homicídios, há pouco ou nenhum efeito substituição. Um desses estudos, realizado em 1988, faz uma comparação entre a cidade de Seattle, no estado de Washington, e Vancouver, no Canadá, na região da Colúmbia britânica — duas cidades praticamente idênticas em termos de clima, população, índice de desemprego, renda média e outras características demográficas. Contudo, em virtude de leis muito mais severas no Canadá no tocante à posse de armas, diz Lemaire, apenas 12% dos habitantes de Vancouver possuem armas, ao passo que esse percentual é de 41% em Seattle.

 

O estudo aponta que “as duas cidades têm basicamente os mesmos índices de assaltos a residências, roubos, homicídios e agressões sem o uso de armas”, observa Lemaire. “Todavia, em Seattle o índice de agressões com armas de fogo é sete vezes maior do que em Vancouver, sendo que o índice de homicídios com uso de arma de fogo é 4,8 vezes maior. Os autores concluem que a existência de armas de fogo em Seattle aumenta os índices de agressões e homicídios com uso de arma, mas não reduz o índice de crimes sem armas, e que leis mais severas para o porte de revólveres reduzem o índice de homicídios nas comunidades.”

 

No caso de suicídios, assinala Lemaire, há evidências mais significativas do efeito substituição. “A menor disponibilidade de um método”, diz, “pode levar a um incremento dos demais. Indivíduos desesperados, que consideram a possibilidade do suicídio, poderão tentar tirar a vida por outros meios se não houver armas de fogo disponíveis. Na verdade, em lugares como o Japão e Hong Kong, os índices de suicídio são superiores aos dos EUA, apesar do acesso rigorosamente limitado a armas de fogo. Menos de 1% dos suicídios nesses países são perpetrados com arma de fogo […]”. Lemaire acrescenta que “a introdução de pressupostos adequados à mensuração do percentual do efeito substituição dificilmente alterariam o número de dias de vida perdidos para as armas de fogo: de 103,6 para 95,8 por cidadão americano, em média”.

 

Diretrizes futuras de investigação

Lemaire não sabe ao certo que usos poderão ter seus dados. O Japão, ressalta o autor no estudo, conta com aproximadamente 50 revólveres, a maior parte dos quais pertence a atletas que participam de competições internacionais de tiro. De acordo com os cálculos mais confiáveis, haveria mais de 250 milhões de armas nos EUA. Para o autor, é muito pouco provável que o governo confisque um dia todo esse armamento.

 

Lemaire observa, porém, que há excelentes oportunidades na área de seguros, particularmente no que diz respeito à forma como as seguradoras fixam o preço dos riscos associados à posse de armas, quem sabe distribuindo-os mais eqüitativamente. “Há evidências”, observa Lemaire, “colhidas inclusive na Penn School of Medicine, segundo as quais a simples posse de uma arma aumenta sensivelmente o risco de vida do seu dono — mesmo quando se controlam variáveis como vizinhança, grau de instrução etc.”

 

O autor acredita também que é possível aprofundar o trabalho nessa área, tanto em nível acadêmico quanto na própria indústria de seguros. Um possível fio condutor lógico seria o cálculo do risco estimado pelas seguradoras para a fixação dos preços das apólices. Demografia e estilo de vida são itens fundamentais nesse tipo de estimativa, porém — dada sua experiência pessoal recente —, Lemaire se diz um pouco intrigado com as perguntas feitas aos interessados na contratação de apólices. “Na semana passada”, disse, “procurei uma seguradora e disse que estava interessado em um seguro de vida. Como gosto de mergulhar e pratico scuba diving, a seguradora me fez 25 perguntas sobre minha rotina de mergulho. O tipo de esporte que pratico é responsável pela morte de 100 pessoas no mundo todo anualmente. Ninguém me perguntou se possuo arma em casa, embora as armas matem 30.000 pessoas todo ano só nos EUA. É incrível que ninguém tenha pensado em me fazer essa pergunta.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Seguro, expectativa de vida e custo de mortes por armas de fogo nos EUA." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [29 June, 2005]. Web. [27 October, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/seguro-expectativa-de-vida-e-custo-de-mortes-por-armas-de-fogo-nos-eua/>

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Seguro, expectativa de vida e custo de mortes por armas de fogo nos EUA. Universia Knowledge@Wharton (2005, June 29). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/seguro-expectativa-de-vida-e-custo-de-mortes-por-armas-de-fogo-nos-eua/

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"Seguro, expectativa de vida e custo de mortes por armas de fogo nos EUA" Universia Knowledge@Wharton, [June 29, 2005].
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