Será possível fazer o Brexit com danos mínimos?

Em 7 de outubro, a queda acentuada da libra britânica no início do pregão asiático ─ com perdas de mais de 6% em relação ao dólar ─ foi atribuída aos pregões computadorizados em meio à baixa liquidez. O evento se tornou o termômetro mais visível de como poderá ser dolorosa a saída iminente do Reino Unido da União Europeia.

Theresa May, primeira-ministra britânica, enfatizou a imigração em detrimento das questões econômicas como fator principal por trás do Brexit durante reunião do Partido Conservador. Na ocasião, a primeira-ministra disse que as negociações para a saída do Reino Unido sair da UE deverão ser deflagradas em março de 2017. Especialistas preveem que O RU [Reino Unido] enfrentará dificuldades na mesa de negociações, e advertem a UE para jogar pesado, no mínimo para impedir que outros Estados-membros considerem a possibilidade de uma saída semelhante.

A maneira pela qual o Brexit será feito com prejuízo mínimo para ambos os lados depende de como, exatamente, ele será negociado e da maneira como a transição será administrada, diz Mauro Guillén, professor de administração da Wharton e diretor do Instituto Lauder [The Lauder Institute]. “O RU é uma grande economia, e é claro que tirá-la da UE significa subverter anos de pressupostos que investidores, empresas e consumidores vêm nutrindo em relação à região.”

É claro que o RU tentará seguir o caminho menos doloroso nesse êxodo, procurando ao mesmo tempo proteger o comércio, o capital e os fluxos de mão de obra com a UE. De fato, a recente declaração do primeiro-ministro francês François Hollande pregando a necessidade de uma negociação severa aumenta a pressão sobre a libra. “A libra continua a perder valor porque os mercados estão antecipando que a transição será complicada”, diz Guillén. “A queda de hoje é reflexo do temor que cerca a forma de negociação do Brexit.”

A incerteza é o sentimento predominante. “A queda acentuada da libra tem contribuído para mitigar significativamente o golpe, porém mostra também que há uma clara falta de confiança no impacto do Brexit a longo prazo”, diz Olivier Chatain, professor de estratégia e de políticas públicas da escola de negócios HEC de Paris e pesquisador sênior do Instituto Mack de Gestão de Inovação [Mack Institute of Innovation Management].

João Gomes, professor de finanças da Wharton, acha que May comete “um grave erro ao precipitar a ida do RU à mesa de negociação”. Em primeiro lugar, ele espera que a UE tenha uma postura severa sobre o Brexit antes das eleições francesas e alemãs no ano que vem. As eleições presidenciais francesas serão realizadas em abril e maio de 2017, ao passo que as eleições federais na Alemanha estão marcadas para o período entre agosto e setembro de 2017. “Depois disso, é muito provável que o realismo e uma boa dose de euroceticismo se insinuem nas perspectivas desses dois governos de importância fundamental”, diz ele. Gomes é contrário à pressa que observa em May porque “o tempo permitirá que as partes tenham uma posição mais objetiva daquilo que é simplesmente a negociação de um tratado internacional entre partes soberanas”.

“Recomendaria à UE, à CE e aos Estados-membros que jogassem duro”, diz Michelle Egan, professora da Escola de Serviço Internacional da American University e pesquisadora do Wilson Center no Programa Europa Global. Ela observa que o Artigo 50 do Tratado da União Europeia, mecanismo legal para que um membro da UE deixe a agremiação, jamais foi usado anteriormente. “Se a transição for facilitada e o RU tiver muitas concessões, haverá o risco de que outros Estados também optem por uma Europa à la carte“, acrescentou Egan.

Ela discorreu ainda sobre as questões que virão é tona à medida que a data do Brexit for se aproximando durante o show da Knowledge@Wharton na Wharton Business Radio, canal 111 da SiriusXM. (Ouça o podcast clicando no alto da página).

Para Guillén, a UE não deveria endurecer na negociação do Brexit, e sim procurar um meio termo. “Não corresponde aos melhores interesses da UE endurecer com o RU”, disse ele. “O problema, é claro, é que eles também precisam indicar que há um custo para quem sai da UE; caso contrário, outros países poderão querer fazer o mesmo. É preciso chegar a um equilíbrio.” Ele espera “alguma forma light de Brexit”, acrescentando que um Brexit severo talvez seja difícil de pôr em prática.

Impacto sobre as empresas

Ao avaliar o impacto do Brexit sobre as empresas, Guillén faz distinção entre serviços financeiros e indústrias não financeiras, tais como manufatura e turismo no RU. Ele diz que as indústrias não financeiras prefeririam um tipo de negócio que lhes permitisse permanecer, de algum modo, no mercado único europeu.

A situação é muito diferente no setor de serviços financeiros devido às consequências da crise de 2008, observa Guillén. “A incerteza do setor financeiro na Europa se dá em razão do grande temor com a situação dos seus bancos”, diz ele. Os bancos da Itália, França, Espanha e até mesmo da Alemanha ─ haja vista os recentes problemas do Deutsche Bank  ─ encontram-se em situação bastante delicada, explica.

Para os bancos britânicos, seria importante negociar um acordo pelo qual eles e seus concessionários pudessem continuar a fazer negócios em toda a Europa, diz Guillén. “Contudo, trata-se de uma situação controvertida porque os europeus não querem conceder aos britânicos o melhor acordo possível sem que paguem o preço por tudo isso”, acrescentou.

Guillén diz que a City londrina é fundamental para o RU porque é a principal fonte de emprego e renda. “Lembrem-se, a população de Londres votou a favor da permanência na UE”, diz. No cômputo geral, sua projeção é de que “será muito difícil negociar um Brexit light na área de serviços financeiros”.

Impacto econômico até o momento

De acordo com Gomes, as projeções sobre o impacto econômico do Brexit foram “pessimistas demais”. Ele diz que isso se deve, em parte, ao fato de que “o voto a favor do Brexit não resultará em uma mudança significativa para a forma como os negócios são normalmente conduzidos”.

As perspectivas de Gomes têm o respaldo de dados referentes aos meses posteriores ao voto favorável ao Brexit em junho. “Os indicadores econômicos estão mais fortes depois do voto a favor do Brexit, o que é surpreendente”, diz Egan. Ela observa que, em julho, o desemprego ficou em cerca de 4,9%, ao mesmo tempo que a produção, vendas e pedidos das empresas também têm se mostrado dinâmicos.

Contudo, a economia poderá sofrer pressões a longo prazo. Em agosto, o Banco da Inglaterra reduziu as taxas de juros em 0,25% e introduziu medidas de estímulos monetários afirmando que “a perspectiva de crescimento a curto e a médio prazos decaiu acentuadamente”. Egan aponta também para as declarações de Philip Hammond, ministro das Finanças do RU, sobre aumento de gastos com infraestrutura, construção de mais moradias, ênfase no desenvolvimento econômico regional e o abandono de um plano anterior de eliminar o déficit orçamentário até 2020. Em 3 de outubro, Hammond alertou para um período de “turbulência” na sequência do Brexit, conforme reportagem do Telegraph. “Ele está privilegiando os empregos, a economia e o padrão de vida”, observa Egan.

As empresas enfrentarão mudanças em seus procedimentos alfandegários, tarifas e em sua relação com o mercado único da UE, nos acordos com cadeias globais de suprimentos e produção integrada, diz Egan. O Brexit trará também novas complexidades para os acordos de livre comércio, especialmente para o CETA (Comprehensive Economic and Trade Agreement, ou Acordo Econômico e de Comércio Abrangente), firmado entre o Canadá e a UE; e o Comércio Transatlântico e Parceria de Investimentos entre os EUA e a UE. “Os EUA terão de avaliar o que significa para sua posição de negociador a saída do RU da UE”, diz Egan.

Chatain observa que as empresas são claramente contrárias ao Brexit, e a recente controvérsia em torno das propostas da secretária do Interior, Amber Rudd, de exigir que as empresas contratem mais nativos do RU, só fazem recrudescer a frente de batalha. “As empresas estão deixando claro que desejam o máximo possível de flexibilidade na imigração e na concessão de vistos, mas isso contraria o mandato concedido pelo voto do Brexit de limitar a imigração”, diz Chatain. As empresas receiam também que as propostas de Rudd as obrigue a revelar quantos estrangeiros empregam. “Inúmeras empresas reagiram cautelosamente às propostas, advertindo que limitariam a capacidade de seus membros de contratar pessoas com o know-how certo para o trabalho”, diz uma reportagem da BBC de 5 de outubro.

O Brexit afetará também o cotidiano das pessoas. As pressões dele decorrentes serão sentidas por toda parte, em viagens e no sistema de saúde, de acordo com Egan. Ela diz que foram feitas 44 milhões de viagens no ano passado do Reio Unido para o resto da Europa para fins de trabalho e de entretenimento. Egan acrescenta que as vantagens de fazer parte da UE não devem ser esquecidas: “Nós nos beneficiamos de viagens sem visto e passaporte. A liberalização das linhas aéreas resultou em voos baratos. As pessoas não se dão conta de que se você é um cidadão da UE, se estiver em outro país e adoecer, poderá usar o cartão de saúde válido para toda a Europa. Tudo isso agora se tornou incerto.”

Com relação ao Brexit, há claramente “dois RUs”, diz Gomes. “Para a maior parte da população móvel internacional, sobretudo urbana, os custos parecerão elevados demais”, acrescentou. “Contudo, para uma fração imensa da população, o único contato perceptível com a UE se dá pelos programas da tevê, pela interação com imigrantes ou pela aquisição de produtos europeus em várias lojas. Eles votaram pelo Brexit e não deverão sentir muitos dos custos diretos decorrentes da saída da comunidade  ─ pelo menos a curto prazo.”

O fator da imigração

O tema predominante no referendo do Brexit é o tema da imigração, e May não perdeu nenhuma oportunidade para reiterar isso. O jornal The Guardian informou que May disse na reunião do partido no domingo retrasado: “Votamos pela saída da União Europeia e nos tornamos um país totalmente independentemente e soberano. Faremos o que fazem os países soberanos e independentes. Decidiremos por nossa própria conta como controlar a imigração. Teremos liberdade para aprovar nossas próprias leis.”

Contudo, Egan observa que o debate da imigração é diferente no Reino Unido em relação ao resto da Europa. “Boa parte da preocupação no restante da Europa se refere aos refugiados e migrantes oriundos de fora da UE”, diz ela. “No RU, o debate tem se concentrado em torno de cidadãos da UE que entram aqui.”

Egan observa que o RU terá de dar respostas a questões complicadas nessa área. “O que farão com os três milhões de cidadãos da UE no Reino Unido? Quando começarão a fixar fronteiras e a exigir vistos? O que farão com quase um milhão de cidadãos do RU em outros países-membros da UE?”

Egan diz que o RU terá de achar meios de manter seus mercados de trabalho flexíveis, salientando que muitos dos que trabalham na agricultura são oriundos de Estados da UE. “Haverá alguns efeitos indiretos se o RU começar a reprimir a mobilidade da mão de obra”, diz. “A questão básica vai girar em torno de pessoas de outros países que trabalham no RU e de cidadãos britânicos que trabalham na UE.”

Perspectiva de negociações

Navegar entre essas incertezas políticas e econômicas estão entre os maiores desafios de May nos próximos meses. “May analisa o cronograma político bem como as incertezas econômicas e suas implicações”, observa Egan. Ela diz que a primeira-ministra também terá de enfrentar eleições em 2020. As próximas eleições gerais no RU serão realizadas em maio de 2020.

Além disso, o parlamento europeu e a Comissão Europeia que votarão no acordo do Brexit mudarão em 2019, ocasião em que o primeiro realizará eleições, disse Egan.

Chatain aponta para dois obstáculos à frente, embora acredite que seja possível um acordo. “De um lado, os leavers [favoráveis à saída do bloco] correm o risco de superestimar a vantagem que terão em relação à UE, exagerando na qualidade dos acordos comerciais que obterão fora da entidade”, diz. “Além disso, a UE certamente não aceitará um acordo que ofereça termos melhores do que os concedidos atualmente à Noruega e à Suíça, porque isso degradaria a importância de permanecer na UE” (a Noruega e a Suíça não fazem parte da UE, mas têm acesso ao mercado comum europeu).

Esse cenário de um posicionamento severo da UE “cria condições para negociações difíceis, já que poderá não haver acordo que pareça politicamente aceitável para as partes no tocante à sua própria base política”, diz Chatain. “Os defensores da saída do RU da UE preferem um Brexit difícil ao que a UE está pronta para oferecer. De igual modo, os demais membros da União Europeia talvez prefiram que o RU saia sem acordo algum do que com um acordo que o governo do RU esteja pronto a aceitar, dada a composição de sua maioria no parlamento.”

Contagem regressiva

No momento em que o Artigo 50 for aplicado, o RU terá um tempo para completar os procedimentos legais do Brexit, diz Egan. “Eles não podem negociar nenhum outro acordo de livre comércio e nem tampouco se julgar em uma nova posição no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio) até que estejam separados da UE”, acrescentou. “Até que abandonem formalmente a UE e repilam todos os atos que os mantêm unidos à UE, o RU continua sujeito às leis, regulações e decisões judiciais da União Europeia.”

Enquanto isso, o governo de May parece estar se preparando para a vida depois do Brexit. “Já se começa a ver o serviço externo britânico, o tesouro e outros se preparando para dizer o que gostariam que acontecesse no tocante a um acordo comercial e a uma estratégia de negociação com a UE”, diz Egan.

Todas essas negociações deverão trabalhar contra o aumento de um sentimento negativo em relação ao voto do Brexit, diz Gomes. “Muita gente em Bruxelas continua a achar difícil superar a sensação de traição e de choque”, diz ele. (Bruxelas sedia a Comissão Europeia e é considerada a capital de facto da UE). “Sua aparente necessidade de impor algum tipo de castigo ao RU deverá tornar complicada toda e qualquer negociação.”

Outro fator que não ajuda o sentimento a favor do RU está em seu próprio governo, diz Guillén. “Aparentemente, os partidários mais radicais do Brexit têm força e predominam, o que é um problema. Esse também é um dos motivos que leva à incerteza.”

Egan observa que os eurocéticos, como os dinamarqueses, hoje apoiam mais a UE do que no passado. “O voto do Brexit teve um efeito sobre os outros países”, diz ela. “Eles dizem que não querem essa confusão, portanto o que se viu politicamente foi um efeito de reação.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

Close


Para uso pessoal:

Por favor, use as seguintes citações para referências de uso pessoal:

MLA

"Será possível fazer o Brexit com danos mínimos?." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [17 October, 2016]. Web. [18 October, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sera-possivel-fazer-o-brexit-com-danos-minimos/>

APA

Será possível fazer o Brexit com danos mínimos?. Universia Knowledge@Wharton (2016, October 17). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sera-possivel-fazer-o-brexit-com-danos-minimos/

Chicago

"Será possível fazer o Brexit com danos mínimos?" Universia Knowledge@Wharton, [October 17, 2016].
Accessed [October 18, 2019]. [https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/sera-possivel-fazer-o-brexit-com-danos-minimos/]


Para fins Educacionais/Empresariais, use:

Favor entrar em contato conosco para usar com novos propósitos artigos, podcasts ou vídeos através do nosso formulário de contato para licenciamento de conteúdo. .

 

Join The Discussion

No Comments So Far