Trump, o dólar e o comércio: o que esperar

As afirmações que o presidente fez anteriormente sobre comércio internacional e valorização da moeda deixaram muita gente preocupada com o que está por vir: depois de ganhar a eleição, Trump continuou a acusar os principais parceiros comerciais dos EUA de práticas desleais além dos comentários feitos durante a campanha. Quando em um de seus primeiros atos como presidente ele telefonou para o presidente de Taiwan, Trump parecia ter posto em dúvida a política de “uma só China” (que implica o reconhecimento diplomático oficial da China, com uma relação não oficial com Taiwan), em aparente afronta à China continental.

O México e o Japão também foram objeto de críticas por suposta manipulação da moeda e práticas comerciais. Até a Alemanha foi censurada por cultivar explicitamente um superávit comercial considerado grande demais. Mais recentemente, porém, em conversa telefônica com Xi Jinping, presidente da China, Trump recuou em relação a qualquer ameaça de abandonar a política de uma só China. Depois, na semana passada, em encontro com Shinzo Abe, primeiro-ministro do Japão, Trump pareceu sugerir mais cooperação do que confrontação. Seguiu-se a isso o anúncio do Fundo de Investimento de Pensões do Governo Japonês, o maior do mundo, de que seriam feitos investimentos em projetos de infraestrutura que criariam centenas de milhares de empregos nos EUA. Contudo, as tensões comerciais com o México e outros países continuam sem solução.

Para compreender melhor como os eventos recentes podem afetar o dólar americano e o comércio internacional, a Knowledge@Wharton conversou com Franklin Allen, professor emérito de finanças da Wharton e professor de economia e finanças do Imperial College de Londres, onde é diretor executivo do Centro Brevan Howard de Análise Financeira. 

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: Gostaria de falar sobre o dólar americano, que pode ser usado como lente, sob alguns aspectos, para a análise das principais questões dos mercados mundiais. O valor do dólar, é claro, tem enormes implicações para o crescimento mundial e é de grande importância para a dívida denominada em dólar dos mercados emergentes. Além disso, para muita gente, o dólar é meio que o reflexo de como os EUA estão se saindo de modo geral, inclusive o novo governo. Portanto, se as pessoas perderem a fé no dólar, é possível que elas o vendam e comprem ouro, ou outras moedas ou investimentos.

Ao mesmo tempo, se o dólar se valorizar demais, poderá afetar o nível de crescimento dos EUA. De acordo com um artigo recente do Financial Times, se o dólar subir 10%, isso poderia tirar meio ponto percentual (0,5%) do crescimento do PIB. Vários indicadores apontam para o fortalecimento do dólar, por exemplo: o crescimento econômico tem sido robusto, e parece que deverá ficar ainda mais forte, principalmente se o governo aprovar um pacote de estímulos. Comenta-se também a possibilidade de desregulamentação, carga tributária menor para empresas e pessoas físicas e perdão de dívidas corporativas. Todas essas coisas poderão pressionar o dólar. O mercado acionário vai indo bem ─ o que parece atrair dinheiro e elevar o valor do dólar. E, é claro, o Fed vem falando sobre o desejo de aumentar as taxas de juros ─ o que fortaleceria o dólar.

Por outro lado, há a questão política. Trump tem demonstrado interesse por um dólar mais fraco. Ele também tem feito ameaças comerciais a alguns dos mais importantes parceiros comerciais dos EUA: México, China, Japão, Alemanha e outros países da zona do euro.

Diante de tudo isso, não faltam contradições. O que você acha desse cenário? Qual a importância de monitorar o dólar para compreender o que está acontecendo no mundo e o que pode vir a acontecer?

Franklin Allen: Acho que é importante monitorá-lo, mas não tão importante assim, embora não há dúvida de que mereça atenção. Provavelmente, o principal fator por trás disso talvez seja a diferença das taxas de juros no mundo todo, pelo menos a curto prazo. E também coisas como um pacote de estímulos, entre outras, poderão afetar o cenário descrito. Se os EUA aprovarem efetivamente um pacote grande de estímulos, creio que o Fed aumentará os juros mais depressa do que o faria em outra circunstância, o que trará desdobramentos. Veremos se será aprovado, qual seu timing e de que modo isso afetará as expectativas existentes.

Outra coisa que considero importante é o que acontece com as taxas de juros em outros países. De modo especial, na zona do euro, isto é, se permanecerá do jeito que está ou se o crescimento que começou a despontar levará ao fim da injeção de liquidez [quantitative easing] com elevação futura das taxas de juros. Tudo isso, creio, será muito importante para o patamar que o dólar deverá atingir.

Acho que a política comercial de Trump também terá papel importante. Já pudemos observar claramente um posicionamento agressivo em relação ao México em especial, mas também em relação à Alemanha e, em menor grau, possivelmente ao Japão. A China, sem dúvida, será um alvo muito importante. Tudo isso tem ficado um pouco em segundo plano em vista de tudo o que aconteceu depois que Trump foi eleito. De modo especial, a conversa telefônica com o presidente de Taiwan e a questão da política de “uma só China”, e se ela terá continuidade.

Espera-se que a conversa de 9 de fevereiro entre o presidente Xi e Donald Trump signifique que agora o assunto está liquidado e podemos nos concentrar no comércio. Acho que há muitas coisas acontecendo, conforme você disse na sua introdução. Gostaria, porém, de enfatizar, principalmente, o interesse na movimentação das taxas de juros e das atividades comerciais.

Knowledge@Wharton: Um dos pontos importantes é que se o dólar subir um pouco, são muitos os países de mercados emergentes que possuem dívida denominada na moeda americana. Sabemos que no passado, na crise financeira de fim dos anos 90, e na crise latino-americana do início dos anos 80 ─ o dólar teve papel importante. Havia muita dívida denominada em dólar que, de repente, se tornou cara demais no momento em que esses países desvalorizaram suas moedas. Você poderia falar sobre os riscos dos mercados emergentes hoje em dia?

Allen: Creio que isso é uma coisa com a qual devemos nos preocupar. A questão principal é saber o quanto esses países têm renda denominada em dólar oriunda de exportações e de várias outras fontes capaz de compensar a dívida em dólar. Creio que são as posições líquidas, e não brutas, o que importa aqui.

Um país como a Coreia do Sul é menos problemático do que alguns outros países que contraíram empréstimos em dólares […] Eu diria que há uma variação muito grande aí. Contudo, creio que é algo que deva ser monitorado pelas pessoas no ano que vem ou nos próximos dois anos.

Knowledge@Wharton: Vimos que o Donald Trump está muito preocupado com as relações comerciais dos EUA com o México […] Comenta-se que ele imporia algum tipo de imposto ou tarifa sobre as exportações. Imagino que efeito isso teria tanto para o México como para os EUA, e de que modo poderia esfriar o comércio em geral. Parte do que eu li indica que o efeito não será muito significativo, porque o dólar poderá se ajustar de um modo cujo efeito seja nulo a longo prazo.

Allen: É isso o que as pessoas estão dizendo, mas só num mundo ideal haveria tal ajuste. Se isso vai ou não acontecer na prática, ainda não dá para saber ao certo. Acho que se o governo Trump fizer algo parecido com o México, haverá grandes problemas porque boa parte do comércio mundial atualmente se baseia na cadeia de suprimentos. Na verdade, muita coisa que está acontecendo no México tem a ver com a cadeia de suprimentos. Se essas cadeias forem interrompidas, é possível que as pessoas relutem em investir nessas coisas novamente, o que pode ter um efeito muito grande.

Acho que isso está atrelado ao modo como eles querem negociar o acordo do NAFTA. Creio que ainda não temos uma boa ideia da sua tática nesse sentido. Há também a questão do muro na fronteira, do pagamento da sua construção e várias outras questões que estão fervilhando no momento. Portanto, acredito que ainda vai demorar um pouco antes que saibamos como as coisas se darão. Contudo, o potencial de disrupção é significativo, não apenas para o México, mas também para vários outros países onde as pessoas recorrem a essas coisas como parte da cadeia de suprimentos.

Knowledge@Wharton: A China foi um verdadeiro saco de pancadas para Trump durante a campanha. Ele falou sobre a desvalorização da moeda chinesa. Alguns analistas e críticos disseram que isso foi verdade anos atrás, mas que hoje não é mais assim. Também é verdade, creio, que a moeda chinesa vem se desvalorizando um pouco em relação ao dólar mais recentemente, mas isso provavelmente é uma coisa boa por motivos importantes. Qual é exatamente a relação entre o dólar e a moeda chinesa hoje e quanto há de mérito no que o governo vem dizendo a respeito da moeda chinesa?

Allen: Para mim, a relação entre o RMB e o dólar depende muito dos fluxos das contas de capital, bem como dos fluxos de conta corrente. Creio que boa parte da discussão se concentra nos fluxos de conta corrente e no déficit que os EUA têm com a China. Contudo, o que temos observado, conforme você apontou, é que nos últimos meses houve um enfraquecimento do RMB e um fortalecimento do dólar. Portanto, a ideia de que os chineses estão manipulando a sua moeda é, de certa forma, válida, mas eles o estão fazendo para mantê-la valorizada, e não o contrário. Creio que isso se deve, em grande medida, aos fluxos de capital que vêm da China. Enquanto persistir essa situação, a moeda continuará fraca.

Temos de acompanhar o desempenho da conversibilidade da conta de capital. Eles disseram que o fariam, mas o prazo para que isso aconteça é muito importante. Enquanto houver dinheiro afluindo em grandes quantidades, conforme se viu até agora, creio que vão relutar em fazê-lo a curto prazo. Portanto, no meu entender, esse é o principal problema da taxa de câmbio RMB-dólar.

Knowledge@Wharton: Além disso, no caso do Japão, o presidente Trump vem tentando influir nas diferenças entre as moedas. E, talvez coincidentemente, houve um anúncio feito pelo Japão de que há disposição dos japoneses em investir nos EUA, o que geraria centenas de milhares de empregos. Quais são os méritos do argumento segundo o qual o Japão continua ─ digo “continua” porque esse é um argumento que remonta aos anos 80 ─ a manipular sua moeda em relação ao dólar?

Allen: Os japoneses intervêm mais do que a maioria dos países no mercado de câmbio internacional, mas acredito que isso deva mais à necessidade de suavizar suas operações, e não o desejo de que isso tenha algum efeito fundamental. Uma das grandes realizações da “Abenomics” [política econômica do primeiro-ministro japonês Shinzo Abe] consistiu em mexer na taxa de câmbio de tal modo que o yen se desvalorizasse efetivamente em relação ao dólar. Contudo, acho que eles estão tentando estimular de verdade a economia, e esse é um efeito colateral, e não a principal razão para fazê-lo. Eu diria que eles não estão manipulando a moeda, e que as acusações feitas pela equipe de Trump ao Japão não são exatamente válidas.

Knowledge@Wharton: Eu me lembro quando o Japão introduziu algumas dessas mudanças através da Abenomics. O Fundo Monetário Internacional (FMI) deu o sinal verde para que fosse em frente.

Allen: Sim. Acho que a ideia era a seguinte: os japoneses haviam sofrido de tal modo por tanto tempo que deveríamos dar a eles passe livre nessa questão. É um tema interessante, já que o Brexit, basicamente, faz a mesma coisa com a libra. A moeda inglesa tem se desvalorizado substancialmente e agora a economia está bem ─ em parte, creio, por causa disso. Portanto, esses movimentos nas taxas de câmbio são impulsionados por uma ampla série de acontecimentos. Acho que a ideia de que os países estão fazendo essas coisas de propósito provavelmente não é válida, na maior parte dos casos.

Knowledge@Wharton: O último exemplo que quero dar é o da Alemanha. Não esperava estar falando da Alemanha até que Trump acusasse os alemães de desvalorizar sua moeda que, é claro, é o euro e que, naturalmente, é a moeda usada pela maior parte do continente. Há críticas segundo as quais a Alemanha estaria se beneficiando de um euro relativamente fraco, porque o país é um grande exportador, um dos maiores do mundo. Assim, se tivesse moeda própria, ela teria se valorizado tremendamente, o que teria equilibrado seu comércio com o resto do mundo. Mas, além disso, a Alemanha tem sido criticada por não gastar mais dentro da UE pegando parte desses ganhos e distribuindo-os, por assim dizer, procurando um modo de estimular o resto da UE. Seja como for, a Alemanha não controla totalmente o euro. Portanto, o que acontece quando você bate de frente com a Alemanha e a acusa de manipular o euro?

Allen: Essa é uma pergunta muito interessante ─ não apenas nesse aspecto, mas também, é claro, se observarmos algumas outras coisas que o governo Trump vem enfatizando. Por exemplo, gastos de pelo menos 2% do PIB com defesa pelos membros da OTAN. A Alemanha também é um dos países que mais violam esse percentual. Eu diria que os alemães têm sido muito pressionados por causa disso.

Com relação ao aspecto econômico, eu seria mais solidário a eles no sentido de que eles não têm controle sobre o euro. A moeda comum é controlada pelo Banco Central Europeu (BCE). Acho que, se pudessem fazer alguma coisa, pediriam ao BCE que aumentasse as taxas de juros. Eles vêm se queixando fortemente por causa da penalidade imposta aos poupadores alemães pelas baixas taxas de juros fixadas pelo BCE. É claro que se fossem aumentar as taxas de juros, o euro se valorizaria significativamente. Portanto, creio que a acusação está equivocada.

Com relação aos gastos, isto é, se os alemães deveriam gastar mais, acho que essa é uma visão macroeconômica baseada em preços inflexíveis, e embora haja algum mérito nisso a curto prazo, a longo prazo não creio que seja uma perspectiva válida. A única coisa que sabemos sobre a Alemanha é que o país vem tendo superávits há muitas décadas. Os alemães são terrivelmente competitivos.

As pessoas amam o que têm. Desse modo, qualquer que seja a taxa de câmbio, elas parecem estar bem. Por isso, creio que, nesse sentido, os problemas apontados por Trump não são exatamente válidos.

Knowledge@Wharton: O que você acha que vai acontecer ao dólar no ano que vem, ou nos próximos dois anos, em face das pressões que mencionei no início da nossa conversa, as quais apontam para a subida do dólar pelo menos em certa medida? Também em relação às outras pressões do novo governo, pelo menos por enquanto, que parece querer um dólar mais fraco, além de adotar uma postura aguerrida em relação aos nossos parceiros comerciais no tocante à moeda na esperança de melhorar a posição comercial dos EUA. Qual a sua opinião a esse respeito?

Allen: Creio que muitas coisas que você mencionou já foram contabilizadas. Uma coisa que sabemos com certeza é que prever a movimentação das taxas de câmbio é uma das coisas mais difíceis de fazer. São poucas as pessoas que conseguem fazê-lo muito bem, e eu certamente não sou uma delas. Eu não ficaria surpreso se o dólar se fortalecesse, mas também não ficaria surpreso se enfraquecesse. Acho que muitas coisas podem acontecer no programa de Trump para que uma ou outra tendência prevaleça. Há também algumas questões comerciais que não tiveram muito bom desempenho, particularmente em relação à China.

Contudo, há várias outras coisas também, como questões de segurança etc., e como o Congresso reagirá. O que farão com os impostos de fronteira que mencionamos e assim por diante. São tantas coisas. Seria difícil prognosticar o que pode acontecer.

Knowledge@Wharton: Existe alguma outra coisa que você queira mencionar em relação ao que tratamos aqui?

Allen: A questão do imposto de fronteira ─ de tornar as exportações não tributáveis e as importações não deduzíveis ─ é um tema extremamente importante. Os republicanos parecem estar pressionando bastante o Congresso, mas ainda não se sabe ao certo o que Trump pensa sobre o assunto. No entanto, isso poderia mudar drasticamente uma série de coisas. Uma delas diz respeito ao dólar, mas também, o posicionamento das empresas mudará bastante, acredito, se alguma coisa desse tipo vier a ocorrer. Veremos. Não sabemos como reagirá a isso a Organização Mundial do Comércio (OMC). Contudo, acho que o tema é crucial.

Knowledge@Wharton: Quando você diz que isso pode trazer mudanças drásticas para as empresas, que mudança seriam essas a grosso modo?

Allen: Bem, exportadores como a Boeing e outros ficarão em situação bastante confortável. Ao contrário de importadores como o Walmart, por causa dos impostos. Esse é um aspecto. Se isso mudará, ou não, seu procedimento no que diz respeito a importar menos e exportar mais, é uma questão para a qual ainda não temos resposta. Não sei qual poderá ser o efeito disso.

 

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Trump, o dólar e o comércio: o que esperar." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [28 February, 2017]. Web. [17 October, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/trump-o-dolar-e-o-comercio-o-que-esperar/>

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Trump, o dólar e o comércio: o que esperar. Universia Knowledge@Wharton (2017, February 28). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/trump-o-dolar-e-o-comercio-o-que-esperar/

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"Trump, o dólar e o comércio: o que esperar" Universia Knowledge@Wharton, [February 28, 2017].
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