Um dicionário bilíngüe para a universidade e a empresa

Um precisa do outro, mas não se entendem. A universidade e a empresa pertencem a dois mundos diferentes, de culturas opostas e idioma distinto. Apesar disso, “a colaboração entre ambas é um fenômeno cada vez mais importante para a criação e transferência de inovações fundamentais para o desenvolvimento econômico dos países”, assinalam María Ángeles Montoro, professora da Universidade Complutense de Madri, e Eva María Mora, professora da Universidade Rey Juan Carlos, em um trabalho de pesquisa publicado recentemente no Universia-Business Review.

 

Nos últimos anos, foram feitos na Europa esforços importantes para aproveitar ao máximo a pesquisa realizada nas universidades com fundos públicos e transferi-la para a sociedade e para a empresa. O continente se acha na vanguarda de muitos campos científicos e técnicos. Por enquanto, não foram obtidos os resultados esperados por falta de uma rede de cooperação. Por isso, a União Européia propôs a criação de um mercado comum de ciência, semelhante ao que existe para bens e serviços. A intenção da UE é que, em 2010, 3% do PIB (Produto Interno Bruto) dos países seja destinado à pesquisa. Talvez assim seja possível competir com países que atualmente ocupam o primeiro lugar em ciência e tecnologia, como EUA e Japão.

 

A transferência de tecnologia das universidades para as empresas avança em ritmos desiguais entre os países. Na Espanha, embora a relação universidade-empresa tenha se intensificado gradualmente, “os níveis desejados não foram ainda alcançados”, observa o estudo.

 

Barreiras e obstáculos

As autoras explicam que há dois grandes blocos de barreiras e obstáculos a serem enfrentados pela universidade e pela empresa em sua associação de esforços: problemas culturais e de comunicação, responsáveis pela maior parte dos obstáculos próprios desse tipo de cooperação; e problemas vinculados à obtenção e à exploração dos resultados das pesquisas.

 

Em suma, o estudo mostra que a universidade e a empresa trabalham com códigos éticos diferentes. Assim, enquanto a primeira baseia seu comportamento em normas éticas como “a não-privacidade dos conhecimentos gerados através da atividade científica, a liberdade de publicar o resultado da pesquisa, o prestígio profissional, a qualidade das pesquisas e a geração de conhecimentos”, a segunda se rege por regras praticamente opostas, como a “privacidade dos conhecimentos obtidos na pesquisa, a não-publicação dos resultados gerados, o desejo de lucro, a aplicação das pesquisas à estratégia do negócio e a melhora da posição competitiva”.

 

Do ponto de vista organizacional, ambas as comunidades pertencem também a universos distantes. Enquanto a burocracia e a rigidez governam a estrutura universitária, as empresas baseiam seu sucesso na flexibilidade e na capacidade de adaptação. Não só isso: a excessiva fragmentação dos departamentos , a falta de um sistema de remuneração e de recompensas para as pesquisas feitas, além da fixação de objetivos de longo prazo vão contra as relações universidade-empresa, já que, no caso desta última, as atividades de pesquisa e desenvolvimento acham-se integradas, os pesquisadores contam com um sistema de remuneração  e os objetivos são de curto prazo.

 

Em resumo, devido ao fato de pertencerem a dois mundos diferentes com valores e organizações opostos, a universidade e a empresa “falam idiomas diferentes”. No entanto, e apesar de tudo o que foi exposto, as autoras explicam que as relações entre ambas as partes vêm crescendo porque têm em comum uma ampla gama de interesses, e por isso existe um fluxo bidirecional de conhecimento.

 

O segundo grande bloco de obstáculos a que as autoras se referem diz respeito à forma como são feitas as pesquisas, bem como a maneira como são exploradas e comercializadas. Um dos maiores receios por parte da empresa é que os acadêmicos se apropriem dos resultados do seu trabalho e abram seu próprio negócio. Para evitar que isso aconteça, a empresa estabelece uma série de restrições sobre o tipo de pesquisa a ser feita, a divulgação dos resultados e sua publicação, bem como o tempo de duração da pesquisa. Essas restrições geram problemas nas relações entre a universidade e a empresa. Freqüentemente, a empresa obriga a universidade a se limitar a uma determinada linha de pesquisa, ao que a universidade pode se negar a fazer se tal procedimento for prejudicial ao ensino. Por outro lado, enquanto a universidade prefere realizar pesquisas de longo prazo, a empresa dá preferência a projetos de curto prazo e focados na resolução prática de problemas.

 

Os acadêmicos, por sua vez, estão interessados em difundir os resultados de suas pesquisas em revistas especializadas, já que isso lhes garante uma certa reputação dentro da comunidade científica. Nesse caso, para as autoras, é fundamental que a empresa defina quais resultados podem ou não ser difundidos. Por fim, as empresas preferem adiar a publicação dos resultados das pesquisas para conseguir primeiramente a patente deles, prejudicando com isso sobretudo aos jovens cientistas em início de carreira. Portanto, ambas as partes deveriam procurar chegar a um acordo sobre o tempo máximo que a publicação poderá ser adiada para proteger legalmente os resultados. As autoras advertem ainda que “não é recomendável cooperar com a universidade quando, para a exploração comercial da pesquisa, é imprescindível que haja uma absoluta confidencialidade durante um período indefinido”. Contudo, acrescentam, uma publicação conjunta de ambas as partes reflete o sucesso da colaboração entre a empresa e a universidade.

 

A necessidade de um marco legal

Para superar essa imensa lista de dificuldades, as autoras recomendam “criar um marco legal que permita reduzir e até mesmo anular o efeito das barreiras, para que haja uma melhor exploração dos resultados sem prejuízo para ambas as partes”. Para isso, propõem que se tome como referência as seguintes diretrizes:

 

Proteger a titularidade de patentes obtidas por meio de pesquisa e desenvolvimento na universidade. As autoras argumentam que é necessário criar um sistema eficiente de incentivos que facilite o intercâmbio de informações entre a indústria e as universidades. Por outro lado, ressaltam a importância de dar proteção intelectual adequada aos resultados das pesquisas feitas em organismos públicos.

 

Especificar os direitos de publicação dos resultados do pesquisador. O estudo recomenda que se estabeleça um ponto de equilíbrio no que diz respeito à utilização de acordos de confidencialidade e de proteção da propriedade intelectual que atenda a ambas as partes. Para conseguir esse equilíbrio entre exclusividade e divulgação de resultados, as autoras recomendam que a universidade não trabalhe com temas semelhantes com terceiros enquanto durar a pesquisa, e que retarde a publicação dos resultados. Por outro lado, as empresas devem reconhecer o direito de publicação das universidades.

 

Elaborar um sistema adequado de incentivos e recompensas consistente com os objetivos de transferência de tecnologia. Os pesquisadores universitários enfrentam alguns problemas no processo de colaboração com as empresas: por um lado, não se pode obter uma retribuição econômica; por outro, o trabalho de pesquisa não está claramente definido nem é valorizado, já que são computadas apenas as horas dedicadas à docência e não as dedicadas à pesquisa. Acrescente-se ainda que esse tipo de cooperação tampouco é adequadamente valorizado no currículo universitário, valorizando-se quase que exclusivamente a promoção obtida nas publicações científicas. Portanto, observam as autoras, cabe ao pesquisador escolher aqueles projetos de pesquisa e desenvolvimento que ganhem as publicações internacionais em detrimento de outros que podem ser mais interessantes, mas não garantem sua publicação.

 

Para enfrentar essas deficiências, as autoras recomendam uma ponderação adequada, no currículo universitário, da pesquisa e desenvolvimento contratados pelas empresas, além de possibilitar a mobilidade e o intercâmbio de pessoal entre universidade e empresa.

 

Identificar os fatores que aprimoram os níveis de sucesso entre as partes

O estudo faz referência à fixação de um objetivo comum, ao empenho para se alcançar determinados níveis de confiança e compromisso entre as partes, importância da experiência dos participantes no projeto etc. como alguns dos fatores que fazem com que as partes acatem mutuamente seus interesses, possibilitando assim que ambos os pontos de vista se integrem à estratégia de colaboração. Nesse sentido, observam as autoras, é fundamental mensurar o êxito da cooperação de diferentes formas, como patentes, publicações, conhecimentos […] sem que nenhum critério se sobressaia aos demais.

 

Intermediários entre a empresa e a universidade. Por último, as autoras destacam a importância de contar com pessoal administrativo nas universidades que façam a ligação entre os “clientes”, no caso das empresas, e os “fornecedores”, ou cientistas.   Há um consenso, observam, “em relação ao fato de que esse intermediário contribui para a melhora das relações entre a empresa e a universidade e, portanto, pode reduzir os obstáculos e as barreiras que existem entre ambas”. Contudo, advertem, há ocasiões em que o intermediário pode adotar uma atitude demasiado burocrática colocando em perigo o processo de colaboração.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Um dicionário bilíngüe para a universidade e a empresa." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [06 September, 2006]. Web. [21 September, 2021] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/um-dicionario-bilingue-para-a-universidade-e-a-empresa/>

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