Um novo tratamento para o mal de Parkinson: como a robótica pode ajudar

Há inúmeras doenças insidiosas que debilitam as pessoas, mas uma das piores é o mal de Parkinson. Seu grau de importância ganhou destaque com o acometimento de celebridades como Michael J. Fox e Mohammed Ali, que faleceu recentemente devido a complicações causadas pela doença. Cerca de 60.000 pessoas por ano são afetadas pelo mal de Parkinson, e um número estimado de 7 milhões a 10 milhões de pessoas no mundo todo padecem desse mal. Alfredo Muniz e Sade Oba, bolsistas na Universidade da Pensilvânia, esperam que seu estudo sobre robótica possa ajudar a melhorar a qualidade de vida dos que convivem com a doença. Ambos estão testando a eficácia do uso de sensores motores para a compilação de dados. Para isso, fundaram uma empresa, a Xeed. Os dois estiveram recentemente no programa da Knowledge@Wharton, canal 111, da Sirius XM e conversaram sobre seu trabalho e como ele pode ser aplicado.

Segue abaixo a versão editada da entrevista.

Knowledge@Wharton: De onde veio a ideia de reunir dados sobre o mal de Parkinson?

Alfredo Muniz: Na verdade, veio de um robô. Também somos estudantes do mestrado de robótica na Universidade da Pensilvânia e tudo começou, de fato, com um robô que podia fazer qualquer coisa. Por incrível que pareça, ninguém queria comprá-lo. Podemos compará-lo ao Amazon Echo, só que móvel. Depois de aproximadamente seis meses de tentativas de comercializá-lo, percebemos que não teríamos sucesso. Ninguém queria esse robô espetacular por que o Amazon Echo já havia sido lançado.

Tiramos então alguns sensores do robô e os usamos para um propósito diferente. Depois de conversar com algumas pessoas, percebemos que os sensores podiam rastrear com sucesso movimentos motores bastante sutis. Depois de uma rápida conversa com um fisioterapeuta, nos concentramos em desordens físicas e, em seguida, especialmente no mal de Parkinson. As pessoas que sofrem dessa doença querem muito uma nova maneira de monitorar a doença, no que esperamos poder contribuir de algum modo.

Knowledge@Wharton: Você teve a ideia de usar um dispositivo de vestir rastreável. Qual o próximo passo desse processo?

Muniz: Em nossos estudos com robótica, notamos que se você tiver um braço robótico, poderá fazer qualquer coisa. A ideia não é nova de modo algum. As pessoas já tentaram fazer braços humanos robóticos. Estamos apenas usando os mesmos princípios, mas sem o hardware. Portanto, trata-se, na verdade, da parte de monitoramento. Agora temos protótipos. Recebemos um pedido da China de cerca de 100 sensores diferentes e vamos testá-los em versão beta em nossas comunidades aqui na Filadélfia.

Knowledge@Wharton: Com que velocidade o processo tem caminhado?

Sade Oba: Muito depressa. Estamos trabalhando nele há pouco mais de um ano, porém a transição de robô para um dispositivo de vestir de fato levou cerca de dois meses. Foi um estalo do tipo: “Olhem, temos de usar apenas uns poucos sensores, transformá-los em itens que possam ser vestidos, vamos lá!” Felizmente, tínhamos acumulado experiência o suficiente do tempo em que éramos estagiários no setor de design de produtos e de biousáveis e por isso conseguimos produzir rapidamente um protótipo e uma versão para que fosse apresentado às pessoas.

Knowledge@Wharton: Você disse que conversou com um fisioterapeuta. Imagino que a comunidade médica tenha demonstrado um interesse maior recentemente?

Oba: Sim, temos uma nova parceria com a Dra. Alice Chen-Plotkin, professora assistente de neurologia da Faculdade de Medicina Perelman da Universidade da Pensilvânia, onde há um pequeno grupo de 250 pacientes com Parkinson que testarão nossos aparelhos, o que é fantástico. Teremos muito feedback  interessante.

Knowledge@Wharton: O que os médicos esperam conseguir com a coleta de todos esses movimentos?

Muniz: A Dra. Chen-Plotkin tem um interesse real pela eficácia da medicação e pelos tratamentos de que dispõe. Ela tem um espaço na Penn Tower e quer que participemos de testes em que diferentes pacientes usarão o dispositivo. As sessões serão filmadas. Os pacientes ficarão ali durante algumas horas por dia. Nossa função será, basicamente, monitorá-los. Um médico perguntará: “O remédio está funcionando? Você é discinético? Passou o efeito do remédio? Você precisa tomar o remédio agora?” Vamos monitorar tudo isso com dados dos dispositivos de vestir. Com isso e com um pouco de aprendizagem automática, esperamos poder correlacionar os resultados com um número maior de pessoas.

Knowledge@Wharton: A expectativa é de que os médicos consigam compreender a eficácia da medicação, se alguns pacientes não precisam tanto dela quanto outros, certo?

Oba: Sim. Muitos pacientes indagam: “Muito bem, vou poder me reunir amanhã às duas da tarde com outros membros do conselho de administração da minha empresa? Será que vou dar algum sinal de que tenho mal de Parkinson? Como evitar que isso aconteça? Quando tenho de tomar minha medicação para impedir que isso aconteça?” Talvez a pessoa ache que deva fazê-lo com duas horas de antecedência, por exemplo. Mas isso é uma coisa que varia de pessoa para pessoa. Nossa empresa tem como objetivo o cuidado personalizado dos que sofrem do mal de Parkinson.

Muniz: Estamos atualmente na fase de manutenção ─ não de fabricação em massa; só protótipos pequenos. Fizemos nosso primeiro protótipo há mais de um ano. Era uma caixa branca imensa. Basicamente, uma porção de componentes padronizados. Em seguida, diminuímos seu tamanho e fizemos 15 caixas. Descobrimos alguns problemas então. Agora, estamos na terceira versão a que estamos chamando de “mark three” e que queremos passar aos pacientes para que a testem.

Knowledge@Wharton: Quando as pessoas pensam em um dispositivo de vestir, elas pensam no Fitbit ou algo parecido. O objetivo final de vocês é fazer com que seu dispositivo iguale em tamanho os demais?

Oba: Na verdade, atualmente ele é alguns milímetros menor do que o Fitbit ─ esse é o porte hoje do nosso “mark two”. O que estamos projetando atualmente é até mais fino. Não nos preocupamos se sua aparência for um pouco volumosa. O objetivo não é que ele seja atraente. No fim das contas, o que nossos pacientes querem é poder monitorar a doença sem o concurso de outras pessoas.

Knowledge@Wharton: Algum de vocês têm alguém na família com mal de Parkinson?

Oba: Não, em nossa família não há ninguém com a doença, mas tivemos um mentor na faculdade, que prefere ficar anônimo, que sofre desse mal. Foi depois de trabalhar com essa pessoa durante anos que nos demos conta de que quem sofre dessa doença poderia recorrer a um dispositivo de vestir como o nosso.

Muniz: Embora tenhamos toda essa tecnologia, ainda há muita coisa que não sabemos a respeito da doença. Isso se deve ao fato de que não existem as ferramentas necessárias para quantificar objetivamente o que se passa.

Knowledge@Wharton: Sade, você mencionou um CEO que pode estar enfrentando o mal de Parkinson e não quer que isso se torne público. Estamos falando de uma doença que carrega um estigma.

Oba: Sim. Um dos pontos fundamentais da nossa empresa é: “Como fornecer um serviço a nossos pacientes que lhes dê muita informação sem deixar que essas informações vazem para outras pessoas?” […] Estamos tentando descobrir um meio de dar aos nossos pacientes inúmeras informações sobre como eles podem melhorar sua vida cotidiana sem anunciar ao mundo que têm Parkinson. Isso é possível com um pequeno dispositivo de vestir e um aplicativo para telefone que eles podem usar para monitorar essas informações. Podem também escolher com quem partilhar essas informações: pode ser o fisioterapeuta, o médico, um membro da família ou o seu cuidador.

Knowledge@Wharton: Imagino que a maneira de testar e de desenvolver o aparelho consiste em conectá-lo ao smartphone, tablet ou laptop, de modo que se tenha a informação disponível e se possa comunicá-la a um fisioterapeuta, um médico, um cuidador?

Oba: Correto. Um dos desafios mais interessantes é exatamente quanta informação compartilhar. Há quem queira colher toda informação possível. São pessoas que desejam saber exatamente como seu braço estava se movendo. Algumas querem apenas saber quando estão se apoiando demais na mesa, porque esse é um dos sintomas. Você não se dá conta disso até ficar curvado. Algumas pessoas querem informações simples como: “Você poderia me dar um toque quando eu fizer isso? É só isso que eu quero saber.” Como você personaliza a informação em um aplicativo desse tipo? Que outras informações os pacientes desejam saber? De que maneira sobrepomos isso com o que desejam os terapeutas e os médicos? Essa é uma das coisas que estamos fazendo atualmente no que diz respeito ao nosso software ─ como ter uma interface unificada, fácil de usar e que atenda às necessidades de todos.

Knowledge@Wharton: Quanto vocês aprenderam com essa experiência?

Muniz: Embora Sade seja engenheira mecânica e eu engenheiro elétrico, durante o tempo em que estivemos na Universidade da Pensilvânia tínhamos tantos recursos que basicamente enlouquecemos aprendendo tantas coisas diferentes e aproveitando a presença de outros estudantes para que nos ajudassem, assim como os professores. São coisas novas, mas acho que estamos habituados a aprender sempre coisas novas, sempre tentando avançar e descobrindo novidades.

Oba: Nunca estivemos tão focados. Já fizemos vários projetos juntos nos últimos anos. Nunca imaginávamos que voltaríamos a trabalhar em um dispositivo médico. Nós nos conhecemos há aproximadamente nove anos. Fizemos o ensino médio voltado para profissionais da área médica e juramos, depois de passar quatro anos à sombra de médicos, que nunca mais faríamos coisa alguma no campo da medicina. No entanto, eis que depois de nos formarmos, a primeira coisa que fizemos foi abrir uma empresa de aparelhos médicos. É interessante ter feito o ciclo completo e estar focado agora em uma coisa específica.

Knowledge@Wharton: Existem outras áreas nas quais vocês gostariam de se concentrar tendo em vista o potencial desse dispositivo?

Oba: Sim. Inicialmente, esperamos prosseguir e ampliar o foco para outros transtornos de movimentos ─ esclerose múltipla, reabilitação de pacientes que passaram por um AVC ─ concentrando-nos naquelas pessoas que precisam monitorar exatamente como se movimentam no dia a dia, que talvez não tenham cura no momento, mas que querem apenas saber: “Como posso estar melhor a esta hora amanhã”?

Knowledge@Wharton: Como tem sido a experiência de ter essa empresa e vê-la desenvolver-se em curto espaço de tempo?

Muniz: Uma loucura. Tivemos de fazer escolhas. Não é possível ser um super-homem e fazer tudo com perfeição o tempo todo. É óbvio que nossas notas foram um pouco prejudicadas, mas nos formamos e ganhamos este presente. Realmente valeu a pena […] Gente de toda parte tem feito contato conosco. Toda vez que sai um artigo noticioso sobre o assunto, há sempre um novo parceiro que quer experimentar nossos dispositivos em sua clínica. Há sempre pacientes novos que querem apenas testar a versão beta. Há também donos de empresas que nos dizem: “Eu tenho mal de Parkinson. Talvez vocês possam me ajudar.”

Oba: A rede está se ampliando. Muita gente já nos procurou. Estamos tentando reunir tudo isso para nos certificar, não de que sejamos capazes de atender a todas as pessoas, mas de gerir a situação de tal modo que ela se encaixe na linha de tempo de crescimento da nossa empresa. Essa é uma das coisas interessantes do lado do empreendedorismo: como ter certeza de que toda essa gente caberá em sua timeline? Será possível?

Knowledge@Wharton: A terceira versão na qual vocês estão trabalhando agora será a que chegará ao mercado? Ou há ainda partes nas quais vocês estão mexendo e estão tentando melhorar?

Muniz: Ainda não está à venda no mercado por causa de regulações governamentais ─ da Federal Communications Commission e também, possivelmente, da FDA. Trata-se de certificados que devemos ter antes que possamos vender o dispositivo físico. Contudo, o serviço pode ser vendido. Neste momento, porém, não estamos interessados ainda em ganhar dinheiro. Estamos interessados apenas em depurar o dispositivo. Haverá ainda mais uma ou duas versões antes de mandá-lo efetivamente para a produção em massa e para venda legal.

Knowledge@Wharton: Por que você precisa da aprovação da FCC?

Oba: Por causa da nossa comunicação sem fio. Se você se comunica sem fio em um dispositivo que está produzindo, é preciso ter uma certificação desse órgão. É uma espécie de área cinzenta: ou você compra o chip de outra pessoa no mercado ou cria o seu próprio. Atualmente, porém, no estágio em que estamos, precisaríamos da aprovação da FCC para fazê-lo.

Knowledge@Wharton: Falta muito para passar pela FDA?

Oba: Será no final de 2017. Não falta muito. O que ajuda é que temos um médico à mão que trabalha com um grupo de pacientes que vêm sendo estudados, portanto é possível fazer um teste beta. Agora que temos essas pessoas e nossos dispositivos estão sendo fabricados, e a única coisa que realmente precisa de ajustes é o software, estamos quase no ponto, depois de alguns meses de testes com essas pessoas […] de nos apresentarmos ao FDA e dar início ao processo.

Knowledge@Wharton: Lidar com o mal de Parkinson é mais fácil atualmente por causa da tecnologia?

Muniz: A tecnologia não é nova. Há empresas que têm dispositivos semelhantes. O problema é que são muito caros. Os hospitais, em geral, têm apenas um ou dois porque não podem pagar um para cada paciente, muito menos pode permitir que os levem para casa. O que estamos fazendo aqui é criar um novo ponto de preço, trazendo essa tecnologia para o consumidor, para os pacientes e para todos os que precisam dela.

Knowledge@Wharton: Quando vocês começaram na Universidade da Pensilvânia há alguns anos, não era esse o caminho que pensavam em seguir, certo?

Oba: Nós dois achávamos que iríamos acabar em empresas de design de produtos na Califórnia com todos os nossos colegas.

Muniz: Quando você entra na engenharia, seu sonho é a Califórnia. Você trabalha para a Apple ou para o Google. Mas no momento em que você começa a fazer estágio ali, vem a admiração: “É isso, então?”

Knowledge@Wharton: Deve ser muito bom saber que vocês seguiram por esse caminho e que há luz no fim do túnel.

Oba: Foi muito compensador. Acho que a luz não é tão brilhante quanto gostaríamos que fosse porque, no momento em que você começa a trabalhar com o mal de Parkinson, a luz maior, mais clara, a luz de fato no fim do túnel é a cura. Nossa empresa não fornece a cura. Não fazemos esse tipo de publicidade porque isso não é possível para o nosso produto. Contudo, o que nos esforçamos para fazer é tornar todos os demais momentos da vida do doente mais fáceis para ele, mais suportáveis, mais administráveis. De tal modo que a pessoa sente que recuperou parte do controle que tinha e que a doença tirou dela. Isso é a melhor coisa que podemos proporcionar e esse é o melhor feedback que podemos receber […] O fato de estarmos nesse espaço e que estejamos fazendo uma mudança real avançando o mais rápido que podemos ─ isso é o que as pessoas realmente apreciam e é com isso que ficam empolgadas.

Knowledge@Wharton: Qual a sua expectativa para a empresa nos próximos 10 a 15 anos?

Oba: Creio que queremos que alguém nos compre, porque gostaríamos de expandir nosso alcance a tal ponto que uma start-up pequena não seria capaz de fazê-lo. Contudo, nos próximos cinco anos, vamos trabalhar com outros transtornos de movimento, com o mal de Parkinson, criando para isso uma rede de terapeutas e fisioterapeutas nessa área para que ajudem a aprimorar os processos terapêuticos ou para que saibamos quais remédios são melhores para cada paciente e quando devem ser tomados. Em seguida, passaremos a outras condições que também precisam do mesmo tratamento que os membros da comunidade do mal de Parkinson hoje são tratados pela Xeed.

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Um novo tratamento para o mal de Parkinson: como a robótica pode ajudar." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [24 August, 2016]. Web. [06 December, 2019] <https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/um-novo-tratamento-para-o-mal-de-parkinson-como-robotica-pode-ajudar/>

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Um novo tratamento para o mal de Parkinson: como a robótica pode ajudar. Universia Knowledge@Wharton (2016, August 24). Retrieved from https://www.knowledgeatwharton.com.br/article/um-novo-tratamento-para-o-mal-de-parkinson-como-robotica-pode-ajudar/

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"Um novo tratamento para o mal de Parkinson: como a robótica pode ajudar" Universia Knowledge@Wharton, [August 24, 2016].
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