Como as redes sociais online estão redefinindo a privacidade e o sigilo pessoais

Uma geração inteira está crescendo na companhia de sites de redes sociais como o Facebook e o MySpace, e aí posta despreocupadamente relatos de suas vidas para os amigos e para o mundo. Poucos usuários se dão conta de que a informação que colocam no ar, quando combinada com novas tecnologias de coleta e compilação de dados, pode criar uma espécie de impressão digital do seu comportamento. Tais informações geram oportunidades não só para negócios legítimos, mas também para ladrões de identidade e outros predadores, de acordo com professores da Wharton e de outras instituições.

“A definição tradicional de privacidade está sendo contestada”, observa Andrea Matwyshyn, professora de estudos jurídicos da Wharton, responsável pela organização, no início deste ano, do Congresso de Melhores Práticas de Segurança da Informação, na Wharton [Information Security Best Practices Conference]. Entre outros tópicos, o congresso tratou das questões de sigilo e segurança suscitadas pelas redes sociais.

A pesquisa sobre as redes sociais e a forma pela qual podem alterar os padrões de privacidade está só começando, conforme explicam analistas do segmento de tecnologia. “Hoje, nossos filhos não economizam nem um pouco nas informações, mas não sabemos que consequências isso poderá ter a longo prazo”, avalia Peter S. Fader, professor de marketing da Wharton. “A privacidade é um alvo em movimento.”

Os pesquisadores dizem que os limites da privacidade variam de acordo com a pessoa e que esses limites estão sendo testados pelas redes sociais. É difícil, dizem, apontar o impacto exato das redes sociais na Internet. Contudo, é evidente que as pessoas recorrem cada vez mais aos sites para se manter em contato com os amigos, conseguir emprego e ampliar as possibilidades profissionais. Os sites de redes sociais atraíram 139,8 milhões de visitantes em abril, um aumento de 12% em relação aos 124,4 milhões registrados em março, de acordo com a comScore, empresa que mede o tráfego na Internet. A pesquisa de abril constatou que o MySpace liderava a categoria com 71 milhões de visitas, o Facebook vinha em seguida com 67,5 milhões e o Twitter com 17 milhões — um aumento de 83%.

Explorando os dados

Lance Hoffman, professor de ciências da computação da Universidade George Washington e um dos preletores do congresso da Wharton, disse que ao informar dados como nome, data de nascimento e redes de amigos, os usuários revelam muito mais do que imaginam. Aplicativos de terceiros, disse Hoffman, podem levar essas informações para fora dos limites de camaradagem de um site de rede social e combiná-las com dados de outras fontes e com isso reunir um volume suficiente de informações para roubar a identidade do usuário. Bastam o nome e a data de nascimento — comumente encontrados no perfil do Facebook — para os propósitos de um ladrão de identidades, diz Hoffman.

“Soube de estudantes que usaram aplicativos de terceiros e com isso tiveram acesso a amigos de amigos, que foram identificados por meio de reconhecimento facial”, diz Hoffman. “Eles não sabiam o que fazer com essas informações, mas outra pessoa saberia. O que acontece quando a coleta desse tipo de informação é automatizada?”

Durante o congresso, Hoffman mostrou como se dão as conexões sociais online e a facilidade com que um estranho pode se tornar parte de uma rede. Ele disse que é constantemente adicionado a listas de contatos e convidado a se tornar amigo de empresas que usam os sites como ferramenta de marketing. As páginas usadas por empresas no Facebook foram reformuladas recentemente para se parecerem mais com as páginas usadas por usuários comuns.

Além disso, a linha entre redes profissionais como o LinkedIn, e redes sociais como o Facebook, “tornou-se extremamente tênue”, disse Hoffman. Diversos usuários do Facebook podem criar uma imagem mais informal nesse tipo de site, ao contrário do que acontece no LinkedIn, onde só costumam postar informações profissionais. Todavia, ambos os sites são acessados por possíveis empregadores e clientes — o que pode gerar complicações. Por exemplo: quando um contato profissional do LinkedIn manifesta o desejo de se tornar seu amigo no Facebook, você aceita o convite? Se aceitar, saiba que com isso dará a ele acesso a fotos do seu perfil em que você aparece em imagens captadas em uma festa barulhenta na praia no último verão.

E aquela pessoa, que você não conhece, mas que deseja ser sua amiga porque vocês têm amigos em comum? De acordo com Hoffman, esse novo amigo talvez esteja apenas sondando seu círculo social em busca de informação. À medida que as redes crescem, e mais amigos de amigos (e os amigos deles) são aceitos pelos usuários, não se sabe mais ao certo em quem confiar.

No fim das contas, o sigilo das redes sociais depende de cada usuário do serviço (é sempre possível recusar convides para se tornar amigo). Hoffman aconselhou aos usuários das redes sociais que conheçam as políticas de privacidade dos sites que frequentam — administrando, entre outras coisas, de que forma as informações que fornece são utilizadas.

Ao mesmo tempo, disse Hoffman, as operadoras dos sites devem trabalhar com políticas de privacidade simples de entender. “As políticas diferem na teoria e na prática. Na teoria, o consumidor conhece a política de privacidade do site e confia na rede. A realidade é que ninguém lê esse tipo de coisa. Eu mesmo não leio.” Hoffman citou a política de privacidade do Facebook como exemplo de política obscura — ela garante aos usuários que controla seus dados e as informações que compartilha. (A versão mais recente tem mais de 3.700 palavras — isto é, mais do que o dobro de palavras deste artigo). Hoffman advoga a necessidade de novos formatos para as políticas de privacidade. Eles seriam semelhantes aos rótulos de nutrientes encontrados nos produtos alimentícios.

Privado aqui, mas lá não

Pesquisa feita por Alessandro Acquisti, professor de administração e políticas públicas da Universidade Carnegie Mellon e também preletor do congresso, constatou que as ideias das pessoas sobre privacidade são maleáveis dependendo do contexto da interação. De acordo com Acquisti, as pessoas se mostram mais dispostas a divulgar informações pessoais importantes — foto, data de aniversário, cidade natal e número de telefone — em sites de rede social do que em outros sites. O levantamento, de 2005, chamou a atenção para os problemas relativos à privacidade, como o assédio virtual e real.

“As pessoas dizem que sua privacidade é importante, mas comportam-se de uma forma tal que fica evidente a ausência de preocupação com ela”, disse Acquisti aos congressistas. “Decisões e avaliações particulares são coisas maleáveis”, mas há dúvidas quanto aos fatores que conduzem a uma abertura maior. Um desses fatores pode ser o “efeito manada”, disse. Num estudo realizado, Acquisti constatou que as pessoas divulgam informações quando veem outras fazendo o mesmo. Essa tendência, na sua opinião, talvez explique porque tantas pessoas se mostram dispostas a fornecer informações pessoais na Internet.

As informações colhidas nesses sites são úteis não só para os ladrões de identidade, mas também para quem trabalha com vendas e outros negócios igualmente honestos. Às vezes, a informação pode ser usada para caçar bandidos, conforme mostra a pesquisa de Shawndra Hill, professora de gestão de operações e de informações da Wharton, em parceria com Deepak K. Agarwal, Robert Bell e Chris Volinsky, pesquisadores da AT&T. Hill diz que o padrão de comportamento em várias redes pode revelar características essenciais do usuário semelhantes a impressões digitais — ou friendprints, num trocadilho com fingerprints (impressões digitais) — que poderão ser usadas para solucionar uma série de dificuldades próprias dos negócios, do marketing dirigido à publicidade ou à detecção de fraudes.

O estudo, intitulado “Construindo uma representação eficaz para redes dinâmicas” [Building an Effective Representation for Dynamic Networks], teve origem numa abordagem sobre a indústria de telecomunicações. Os autores queriam identificar os assinantes do serviço telefônico que deixavam frequentemente de pagar suas contas contratando o serviço mediante pseudônimo. O problema não é novo. Contudo, o objeto do estudo era mostrar de que forma identificar claramente a característica da rede social do cliente e compará-la às característica criadas por clientes que haviam deixado de pagar a conta anteriormente. “Os caloteiros reincidentes podem ser identificados ao longo do tempo, apesar dos pseudônimos, graças à sua ‘característica de rede social’, conforme explica o estudo.

“Em outras palavras, o consumidor é aquele para quem telefonam, enviam um e-mail ou uma mensagem instantânea”, diz Hill. “Embora não seja difícil fazer uma assinatura valendo-se de pseudônimo, é extremamente difícil mudar de amigos e de família.” Grandes empresas de telecomunicações, provedores de Internet e sites de redes sociais como o MySpace e o Facebook dispõem de fartos conjuntos de dados os quais podem ser consultados para identificação das características de rede. Hill diz que a técnica está em fase de aperfeiçoamento. Sua taxa de precisão atual é de 95%.

Contudo, as questões ligadas ao sigilo e à privacidade colocam problemas complicados para os profissionais de marketing, que buscam modelos bem-sucedidos de publicidade para as redes sociais. De acordo com empresa de pesquisas eMarketer, o gasto com esse tipo de publicidade será de cerca de US$ 1,29 bilhão este ano, bem mais do que o valor previsto de US$ 1,17 bilhão em 2008. O MySpace é dono de 50% do total das receitas. A publicidade em redes sociais corresponde a uma pequena fatia apenas dos US$ 25,7 bilhões a serem gastos em anúncios online em 2009, conforme dados da eMarketer.

Eric T. Bradlow, professor de marketing da Wharton, diz que o objetivo maior de qualquer profissional da área de marketing é monitorar o cliente e seus amigos — e o que dizem a respeito de um determinado produto — por meio das redes sociais. “As pessoas se mostram mais dispostas a divulgar informações se o objetivo em vista for social, sendo que os principais usuários estão na faixa dos 18 aos 25 anos”, observa Bradlow. “Os padrões sociais relativos à privacidade não serão mais os mesmos de antes.”

Contudo, conforme disse Acquisti, normas sociais aceitáveis estarão sujeitas ao contexto. “Vamos imaginar que uma administradora de cartão de crédito tivesse as informações que você colocou no Facebook”, diz Bradlow. “Você ficaria assustado. É o contexto. As pessoas querem determinar quando e onde os dados podem ser compartilhados.”

Citando a Universia Knowledge@Wharton

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"Como as redes sociais online estão redefinindo a privacidade e o sigilo pessoais." Universia Knowledge@Wharton. The Wharton School, University of Pennsylvania, [17 June, 2009]. Web. [15 December, 2018] <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/como-as-redes-sociais-online-estao-redefinindo-a-privacidade-e-o-sigilo-pessoais/>

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